eXistenZ

Ficção Científica. Por que todo esse fascínio por esse assunto, vindo da literatura, do cinema e de tantas outras fontes?  Por motivos mentais, irei discutir mais a parte cinematográfica.

Primeiro vimos os filmes de Meliès, ilusionista que utilizava curta-metragens durante seus espetáculos como um atrativo a mais. Através de truques de montagem e truncagem, conseguia fazer filmes de cabeças sendo infladas, objetos se mexendo sozinhos e sua grande obra que podemos chamar de “O primeiro filme de ficção científica”: Le Voyage Dans Le Lune, de 1902:

Meliès sempre narrava seus filmes; nesta versão é a neta dele que está narrando, e foi tirada de um documentário sobre o cinema de atração de Meliès. De uma forma descontraída, os personagens viajam a Lua, passam uma série de apuros e depois voltam para casa. Por mais que tentem se afastar disso, todos os filmes refletem os anseios de sua época mesmo sendo futuristas, e este era o momento de descoberta do cinema. Meliès mostrou tudo com felicidade, digna de uma grande novidade, um brinquedo novo.

Pouco mais de vinte anos depois, no auge do cinema mudo e na tensão do Entre Guerras, temos o grande marco do expressionismo alemão com o filme que muitos consideram ser o primeiro do gênero: Metropolis, de Fritz Lang, 1926. No auge da Revolução Russa, Fritz Lang cria um mundo futurista onde os trabalhadores moram no subterrâneo da cidade, enquanto os ricos aproveitam a cida da maneira que podem. Motivado por uma morte traumática, um inventor cria um robô que suprisse sua carência e, junto disso, substituísse todos os trabalhadores humanos, dispensando-os de suas existências.

Adicionando um resuminho:

In the future, the society of Metropolis is divided in two social classes: the workers, who live in the underground below the machines level, and the dominant classes that lives in the surface. The workers are controlled by their leader Maria (Brigitte Helm), who wants to find a mediator between the upper class lords and the workers, since she believes that a heart would be necessary between brains and muscles. Maria meets Freder Fredersen (Gustav Fröhlich), the son of the Lord of Metropolis Johhan Fredersen (Alfred Abel), in a meeting of the workers, and they fall in love for each other. Meanwhile, Johhan decides that the workers are no longer necessary for Metropolis, and uses a robot pretending to be Maria to promote a revolution of the working class and eliminate them.

Metropolis traz a tona a principal discussão de todos os tempos sobre a ficção científica: a substituição do homem. Desde a Revolução Industrial, muitos abordaram o tema do medo em volta das máquinas, e quanto elas vão se tornando cada vez mais parte de nós. Fritz Lang foi o primeiro, mas está longe de ser o único.

Vou dar um salto no tempo pra não ficar longo demais: 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, 1968: Guerra do Vietnã. Nisso, Kubrick cria seus personagens e seus mistérios, mas o mais importante: HAL 9000. O computador é, definitivamente, a única presença realmente humana dentro da nave, com reações diversas a estímulos e com medo de ser desligado; a cena em que Dave o desativa é inacreditável, como se fosse uma criança implorando pela própria vida.

Anos 80? Brazil, Terry Gillian, 1985.

Brazil (which takes place “Somewhere in the 20th Century”) recounts the story of Sam Lowry, a low-level government employee who is conflicted about his role in an apparently overreaching bureaucracy. We learn that he is initially happy with his “dead end job” and simple life, and that he habitually escapes into a fantasy world of romantic struggles. His lonely and content life becomes complicated, however, by his mother’s attempts to secure him a promotion, a renegade heating engineer, and the real-life appearance of the woman from his daydreams.

The movie appears to have strong anti-Orwellian and anti-totalitarian themes, though the characters themselves are not necessarily aware or troubled by the level of intrusion the government has into their affairs. Most characters are depicted as simply living their lives, more or less unconcerned with the layers of bureaucracy the citizenry often strains under. Nonetheless, the audience will almost certainly be repulsed (and probably eerily familiar with) many of the modes of control and obfuscation the system forces onto the country.

The nonchalance of the characters often manifests itself in satirical ways. A receptionist, for example, is seen casually transcribing an off-screen conversation. When interrupted by the main character, she tilts her headphones off of her ears, allowing us to hear the pained sounds of someone undergoing severe torture. After cheerfully addressing the main character, she continues to dutifully record the nearly unintelligible pleas and screams. Terry Gilliam makes sure to point out in the DVD commentary that she is an example of “those kind of people.”

Sam, throughout the story, becomes increasingly involved in complicated and life-threatening attempts to secure himself happiness, while also developing a strong hatred for the system of which he is a part. Ultimately, his efforts culminate into a violent and tragic climax, the outcome of which depends entirely on his friends’ loyalty to Sam over their loyalty to the system that controls them.

Ok, o que tem nesse enredo? Tudo. O sistema totalmente burocratizado e computadorizado, o fim da privacidade, o culto obcessivo à imagem e ao consumo e a vidinha banal de todos. O cara transpôs os dias de hoje num ambiente anos 80. Genial.

Mais anos 80? Blade Runner, Ridley Scott, 1982.

O filme descreve um futuro em que a Humanidade inicia a colonização espacial, para o que cria seres geneticamente alterados – replicantes – utilizados em tarefas pesadas, perigosas ou degradantes nas novas colónias. Fabricados pela Tyrell Corporation como sendo “Mais Humanos que os Humanos”, os modelos Nexus-6 são fisicamente idênticos aos humanos mas são mais fortes e ágeis. Devido a problemas de instabilidade emocional e reduzida empatia, os Replicants são sujeitos a um desenvolvimento agressivo, pelo que o seu período de vida é limitado a 4 anos.

Após um motim, a presença dos Replicants na Terra é proibida, sendo criada uma força policial especial – Blade Runners — para os caçar e “aposentar” (matar).

No filme conta-se como um ex-Blade Runner – Deckard (Harrison Ford) – é levado a voltar ao activo para caçar um grupo de Replicants que se rebelou e veio para a Terra à procura do seu Criador, para tentar aumentar o seu período de vida e escapar à morte que se aproxima.

A atmosfera reflete muito do ambiente poluído visualmente dos anos 80, mas agora não é mais a máquina! A criação do homem já está tão intrínseca na nossa vivência que começa-se a não mais brincar com aço e eletricidade, e sim com desejos e carne.

Nossos medos chegam mais longe, à tecnologia e cultura dos anos 90, com eXistenZ, David Cronenberg, 1999.

Allegra Geller (Jennifer Jason Leigh) is the greatest game designer in the world and testing her latest virtual reality game, eXistenZ, with a focus group in what appears to be a church. To play the game, you must plug the ‘pod’, the organic future version of a gaming console, into a ‘bio-port’ near the bottom of your spine. As they begin, she is attacked by a fanatic assassin armed with a bizarre organic gun which is undetectable by security. Fearing other assassins, she flees with public relations trainee, Ted Pikul (Jude Law), who is suddenly assigned as her bodyguard. Unfortunately, her pod, containing the only copy of the eXistenZ game, is damaged in the assassination attempt. To inspect it, she talks a reluctant Pikul into accepting a bio-port in his own body so he can play the game with her. The events leading up to this, and the resulting game lead the pair on a strange adventure where it becomes impossible to tell if their actions are their own, or the will of the game, and impossible to tell if they are in the game, or in the real world.

Em eXistenZ não há cenário futurista. Todo o filme se passa em chalés, estradas, carros, e há muitas contruções de madeira; mas estas parecem ser mais intimidativas do que seriam se fossem de metal. Tudo neste filme é completamente orgânico: o dito console é um ser vivo modificado por uma empresa; ele deve ser plugado em você para funcionar. Durante o filme, o tal do bioport toma em muitas vezes uma conotação completamente sexual e você percebe o jogo tomando conta das mentes de ambos, controlando suas ações. Como disse nosso amigo João Luiz Vieira num texto sobre Ficção Científica:

“(…)uma inquietação contemporânea que provém de uma possibilidade palpável do fim do sujeito e o surgimento de uma nova individualidade construída na tela do computador, da televisão ou do videogame, em simbiose inescapável com a máquina.”

Vídeo tosco mas serve. Não tem outro, infelizmente.

O grande lance de eXistenZ é que ele consegue ser mais apavorante que todos os outros, parte provocada pelo nojo que dá de ver armas que atiram dentes e videogames feitos de carne, mas em maior parte por ver que não é algo tão distante assim. A idéia também foi explorada em Matrix, mas esse não é nem metade do que eXistenZ é no quesito inovação e medo da perda de identidade. Até onde essa manipulação de mentes e corpos chegaria?

Temos um palpite bem legal:  Ghost in The Shell, de Masamune Shirow, 1996.

In the year 2029, the world has become interconnected by a vast electronic network that permeates every aspect of life. That same network also becomes a battlefield for Tokyo’s Section Nine security force, which has been charged with apprehending the master hacker known only as the Puppet Master. Spearheading the investigation is Major Motoko Kusanagi, who — like many in her department — is a cyborg officer, far more powerful than her human appearance would suggest. And yet as the Puppet Master, who is even capable of hacking human minds, leaves a trail of victims robbed of their memories, Kusanagi ponders the very nature of her existence: is she purely an artificial construct, or is there more? What, exactly, is the “ghost” — her essence — in her cybernetic “shell”? When Section Six gets involved in the case, she is forced to confront the fact that there is more here than meets the eye, and that the Puppet Master may hold some of the answers she seeks. But little does she know that he has been seeking her as well.

A personagem principal não é mais uma humana, mas ela pensa em sua existência, em sua alma, e nos crimes do Puppet Master que nada mais são do que um ser virtual buscando sua existência real. O que seria existir? Possuir alma? E esta alma, será substituída por uma máquina, orgânica ou não, que criará sua própria alma? A ficção científica, por mais que nos pareça algo bobo e lucrativo, no final das contas é a expressão mais descarada dos nossos medos em relação à tecnologia e às mudanças que ela nos traz, tanto em questão do estilo de vida quanto à nossa real existência.

~ por Suzana Bueno em 12/04/2007.

Uma resposta to “eXistenZ”

  1. Resenha interessante, particularmente a parte de Ghost in the Shell.

    Aliás, pra você que gosta de estar antenada:

    http://www.updateordie.com.br

    Não sei se já conhecia, ou se tem algo a ver com as suas tendências. Mas vale à pena conferir.

    Abraços.

Deixe uma resposta